Hacia el Vacío

 

 

 

Estive no deserto do Atacama em maio deste ano e nevou na região mais seca do nosso planeta. Fiquei encantada com os pequenos pontos brancos que salpicavam a noite e dormi ansiosa pra ver como esta paisagem, já misteriosa, ficaria pintada de branco.

Acordei muito cedo, com a mesma sede de um fotojornalista ao cobrir um acontecimento histórico. Vi o céu completamente estrelado com a árvore do oásis onde o hotel se localiza coberta de neve. Conforme explorava esta paisagem mergulhei em um êxtase que alcançou o ápice quando a luz do sol revelou completamente a beleza nova da paisagem.

Fiquei feliz com o resultado destas fotografias e quis compartilhar com as  pessoas. Leila e João cederam o espaço maravilhoso, projetado pelo arquiteto Isay Weinfeld, para a exposição, Juan fez a curadoria, Millard imprimiu as fotos no papel de algodão para que possamos sentir a suavidade da imagem, Lucrécia emoldurou de forma impecável, Carlão  pendurou com muito cuidado cada obra e Suva ajudou a ambientar o lugar.

Mas o que realmente significa nevar na região mais seca do planeta? A beleza que embriaga em um primeiro momento pode estar dizendo outra coisa. Neva no deserto e não chove na terra da garoa. Imagens que sugerem repensar a relação com o planeta.

  Juliana Lewkowicz

Atacama 9 

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 Desertos são uma seca barreira de terra coberta de areia, caracteristicamente desolada. Também  são lugares místicos, que abrigam aventuras como as do soldado britânico T.H. Lawrence, o Lawrence of Arabia,  ou buscas existenciais como aquelas do escritor americano Paul Bowles, narradas em seu belo livro The Sheltering Sky.
Fotógrafos também não deixaram por menos. Das imagens elegíacas em preto e branco dos americanos Ansel Adams e Edward Weston, dos anos 1930 aos anos 1970,  as mais conceituais do californiano Richard Misrach ou do mexicano Alfredo de Stefano, mais contemporâneas, representam momentos contemplativos, existenciais ou se tornaram fortes manifestos.
Juliana Lewkowicz ao escolher como cenário o deserto do Atacama, no Chile, enveredou por salinas, termas e gêiseres em busca de suas imagens. Entretanto, sua colheita não trouxe a usual camada plana que estamos acostumados a ver, e sim uma peculiar paisagem,  de uma áreas fértil, graças a “camanchaca”, uma bruma que sai do mar e que permite a vida.
Com relativa experiência fotográfica -apesar de já ter sua câmera fotográfica aos 7 anos de idade- em cursos como a Escola Panamericana de Arte e o curso de Formação em Fotografia, da Escola São Paulo, Juliana Lewkowicz traz uma série de imagens cujo principal impacto é a provocação de uma estese direta, bem como de incredulidade, pois suas belas árvores estão congeladas, cobertas de neve, criando uma certa exclusividade em sua produção. Algo raro de se ver impresso, algo difícil de acontecer em um deserto.
A fotógrafa trabalha o conceito de temporalidade em suas imagens. Processo que iniciou com os registros da sua maternidade, algo que como ela mesmo diz, muito efêmero.  Nas paisagens do Atacama, há essa ideia- as vezes até mesmo direta – da efemeridade da imagem fotográfica. Suas composições não são permanentes, como a areia do deserto, elas refletem momentos únicos e raros de uma natureza exuberante mais incomum.
Se Misrach em seus Cantos, buscava a lembrança dos testes atômicos nos desertos americanos; e De Estefano a busca do deserto mexicano como suporte de suas instalações, Juliana Lewkowicz traz para sua obra momentos fugazes, ontológicos, representados por um estado temporário da natureza, capturada por outro momento igualmente temporário, o instante fotográfico.
O resultado é uma produção essencialmente poética, calcada em grafismos de uma palette delicada nos tons frios, e a proposta de discutir a escala entre o humano e a natureza, bem como colocar em evidência o eterno paradoxo entre beleza e efemeridade entre o vazio e o habitável. Liberdade e emoção, como diz o poeta W.H.Auden.

Juan Esteves (curador da mostra Hacia el Vacío)

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