Pequena Morte

Pequena morte

 

Arrumo uma sala de almoço no Atelier, onde antes funcionava a fabrica de sapatos artesanais da minha família, escolho um lugar bem agradável, onde o pé direito é bem alto e há uma enorme janela coberta por uma cortina de gaze de linho, que deixa entrar uma luz suave e acolhedora; coloco um tapete para aquecer o ambiente, uma mesa de madeira, duas cadeiras, flores coloridas duas velas compridas e duas velas perfumadas, arrumo os dois lugares na mesa com jogos americanos, pratos, talheres de prata, duas taças para cada lugar, uma de vinho outra de água. Completo duas taças com o vinho rose gelado para que possa respirar um pouco antes da refeição, preencho as outras duas com água. Monto a salada, folhas coloridas e tomatinhos orgânicos, numa pequena travessa de prata, faço o mesmo com as frutas em outra travessa do mesmo material, uvas verdes, ameixa, pera; cozinho o ravióli de abóbora, derreto a manteiga para o molho, frito a sálvia e dou uma dourada nas lascas de amêndoa, ralo um pouco de queijo, arrumo tudo junto em uma pequena travessa funda de prata com tampa, coloco alguns pães em um cestinho e gelo num pequeno balde de cristal. Ascendo as velas, sirvo a comida. Sento a mesa; espero. Tomo um gole de vinho, uma luz suave atravessa a cortina e ilumina a mesa, as flores quase não me deixam ver o lugar a minha frente vazio; me sirvo de massa, sento novamente, experimento, o ravióli macio, a sálvia e a lasca de amêndoa crocante, muito saboroso, tomo mais um gole de vinho e assim sigo almoçando, quando termino cruzo os talheres, escrevo, deixo a mesa como está, esperando pelo encontro. Volto no dia seguinte, sento a mesa, escrevo minhas observações sobre o que vejo, faço alguns registros fotográficos, saio; repito essa ação diariamente, ou quase diariamente, sigo aguardando, registrando, observando e sentindo as mudanças na mesa, enquanto a aranha tece sua trama sob a mesa e depois sobre a mesa, as flores murcham, a água e o vinho evaporam, as frutas murcham e mudam de cor, a mesa começa a ser habitada por insetos, sigo aguardando observando e registrando.

Pequena morte

A espera pela espera, sem um fim, uma espera que gira em falso, não tem um propósito, parece vazia, como Vladimir e Estragon esperam por Godot na peça de Samuel Beckett (1906-1989); ou como as duas figuras da escultura Impossível, de Ana Maria Martins (1894-1973), que nunca vão se beijar, nunca vão se encontrar; a espera de Julieta por sua filha no filme homônimo de Pedro Almodóvar (1949), que é longa e angustiante; ou a espera de Georges no filme Amour, dirigido por Michael Haneke (1942), que chega ao ponto de ficar insuportável. E eu, até que ponto poderia esperar?

Pequena morte - detalhes